
"Baby take off your coat/ real slow
and take off your shoes
I'll take your shoes
Baby take off your dress/ yes yes yes
You can leave your hat on"
(Joe Cocker)
Eu fui pra audiência pra dizer que não ia. Quer dizer, que minha cliente não ia. Separação com partilha de bens, mas os bens tinham ficado bem "bem". Entendeu?
Seguinte: ela até queria separar, mas se reconciliaram e nos últimos meses até que compartilhavam a vida até que numa boa. Ligo para a cliente para lembrá-la da audiência. Ela muito "manhosa" ao telefone diz que nem ela nem o Maridão vão ao Fórum .” Não pretendiam partilhar mais nada que não fossem os até que bons momentos.
Por mim, sem problemas. Só que eu tinha que ir, né? Cá pra nós: ela bem que podia ter dito isso antes e encerrado o processo, mas não! A garantia de uma ação de separação que pairava ameaçadoramente sobre o Maridão, o impedia de cometer qualquer "mau comportamento", qualquer deslize. O "processo" Kafkaniamente estava ali, na manga do vestido, pra servir de proteção e ameaça, contudo, os verdadeiros motivos, razões e consequências, ninguém sabia. Bem, ela queria continuar com o processo? Qual o quê? Advogado ouve e obedece. Claro que isso tudo aumenta um pouco a despesa no final, as custas, enfim ... (NOTA: Depois a Justiça é lenta e ninguém sabe o motivo, perdoa Themis!)
Estava lá eu, sentada, esperando pacientemente para proceder a operação de justiça, quando chega o Maridão e sua advogada. Ele me olha como se eu fosse culpada de alguma coisa: esse era o meu veredicto! Advogada sob suspeita, meus caros. Maledeta! Eu, gente!
Minha surpresa diante da presença deles, só não era maior do que a deles em saber que minha cliente não viria. Percebo a indignação do Maridão, sujeito italianão brabo, marrento, que a qualquer momento pularia no meu pescoço praticando todos os métodos de execução praticados pelos nazistas.
- Ela me disse que pediu pra senhora parar o processo. Ela disse que não queria mais separar. A senhora que queria.
Opa! Pera lá, queridinho! Só quem pode separar de você é ela. Eu não! Não sou tua nega, rapa! Respiração e mantra. Tentando ser profissional, respondo:
- Maridão, esse é o segundo processo de separação que ela inicia, você sabe disso! O primeiro, no ano passado, ela realmente pediu para parar e foi devidamente encerrado. Este, (mostro a pasta) iniciado neste ano, nada foi solicitado - Ele meneia a cabeça entendendo, continuo - Acontece que ela não vem hoje, pois não recebeu a citação.
Ele quase sobe na cadeira:
- Como não recebeu? Nós dois recebemos a carta em casa. Eu entreguei pra ela, a senhora tá me escutando, eu entreguei a carta pra ela. Ela é assim mesmo... Tá achando que vai me assustar... Mas, não consegue... ELA TEM QUE VIR!
Tentando conciliar o inconciliável, digo:
- Bom, ela me disse que não viria, pois vocês já estão vivendo bem em casa.
Foi o que bastou pra ele:
- Pois olhe que a Mulherzinha está querendo me enlouquecer. Nós estamos muito bem. Brigamos ontem e tudo. Eu sei que é só de aparência quando a gente tá bem. Mas, ela disse que foi a senhora quem instruiu ela pra separar. A senhora quem deu continuidade ao processo. A senhora quem inventou todas aquelas barbaridades que estão no processo. A senhora não tem idéia do que está fazendo! – já num tom de ameaça.
- Pois olhe que a Mulherzinha está querendo me enlouquecer. Nós estamos muito bem. Brigamos ontem e tudo. Eu sei que é só de aparência quando a gente tá bem. Mas, ela disse que foi a senhora quem instruiu ela pra separar. A senhora quem deu continuidade ao processo. A senhora quem inventou todas aquelas barbaridades que estão no processo. A senhora não tem idéia do que está fazendo! – já num tom de ameaça.
Contraditório isso: esta é a profissão, eu sou a cliente, e ao mesmo tempo não sou! Eu que faço, mas não sou eu quem faz! Doido! Diante da ênfase, imaginei a cena: Eu, a destruidora de lares. laço em punho no meio da rua caçando mulheres e as obrigando a propor ação de separação. E pior, a mesma vítima tinha caído duas vezes no meu laço. Alto lá! Vamos ser práticos?
- O senhor falou com ela hoje?
- Claro que sim! Nós dormimos na mesma cama, a senhora quer que eu lhe conte os detalhes?
- Por favor! – digo apenas isso, tentando evitar os detalhes sórdidos - Um minuto que eu vou ligar para ela e resolveremos a questão imediatamente.
Ligo e ela atende. Ela me pergunta se ele estava ali, eu comunico que sim e que estava bem do meu lado ouvindo a conversa. Ela disse que mesmo assim não viria. Faço as perguntas e ele escutando. Confirma-se a minha história: ela queria continuar o processo, nunca tinha pedido para que fosse arquivado, não viria na audiência porque pretendia prolongar a “ameaça” da separação para que ele continuasse se comportando bem.
A outra advogada entra em alfa. Eu não sei de onde saiu aquela advogada, mas eu já peguei simpatia. Ela numa onda de "all we need is love", sentencia:
- Nenhum dos dois quer se separar realmente.
Gota. Transborda o italianão Transformação. Ele retumba nos corredores do Fórum:
- As senhoras me desculpem. Mas, ela tá pensando o que? Ela mente, inventa um monte de coisas, vai à delegacia faz BO, diz que eu a agredi, conta para centenas de pessoas, e acha que fica por isso mesmo? Não... Quem quer continuar com esse processo sou eu. Ela tem que vir aqui e se explicar.
O que aquele sujeito queria realmente? Ele caminha num vai e vem incansável. Deixa bem claro para nós, para o Fórum, para o bairro e para o Planeta Marte, que só existe uma saída para a situação: ela aparecer. Neste rumo, as prováveis conseqüências são: ela diz que quer encerrar o processo e continua o casamento. Ou, ela diz que continua o processo e termina o casamento. Decidido. Fora isso não tinha jogo. WO perdia.
A outra advogada olha nos meus olhos como quem diz: o que se pode fazer?
Olho pra ela com cara de: eu é que sei?
Olho pra ela com cara de: eu é que sei?
Somos chamados pela justiça! Na verdade um menino da sexta fase de direito que está na sua primeira atuação como Conciliador. Audiência de conciliação aberta: assistente social e o garoto. Tadinho. A assistente começa a falar e não sei como ela chega a brilhante idéia: quer que eu ligue para a cliente e a convide novamente para vir na audiência. Eles esperariam a chegada da Mulherzinha.
Aquilo tava virando uma verdadeira festa no apê: pode aparecer, vai rolar bundalelê! Código de Processo Civil pras cucuias! Eu até que tento advogar naquela novela mexicana, digo que ela pode se sentir pressionada e que não era o procedimento correto. Diante dos insistentes pedidos, consulta-se o juiz, que estava numa outra audiência, fica determinado que a ligação deveria ser feita, seria apenas um mero convite, já que ali estava em risco um casamento e bla blá.
Ligo. Ela atende. Antes que eu diga qualquer coisa, pergunta se ainda dá tempo dela ir... Diz que talvez queira ir e pede pra falar com Maridão. Conversam brevemente e ele vai buscá-la em casa. Ainda no telefone, me ofereço pra ir buscá-la, só que a Mulherzinha diz que não, que é melhor que Maridão vá. Tudo bem! Stress! Saímos da sala, para que a próxima audiência tomasse lugar e ficamos esperando, eu e a outra advogada.
Ligo. Ela atende. Antes que eu diga qualquer coisa, pergunta se ainda dá tempo dela ir... Diz que talvez queira ir e pede pra falar com Maridão. Conversam brevemente e ele vai buscá-la em casa. Ainda no telefone, me ofereço pra ir buscá-la, só que a Mulherzinha diz que não, que é melhor que Maridão vá. Tudo bem! Stress! Saímos da sala, para que a próxima audiência tomasse lugar e ficamos esperando, eu e a outra advogada.
O que se passou agora parece inacreditável. Ao meu lado no corredor, em pé, a doutora começa, de leve, no sambinha:
- É preciso muito amor ...
Não resisto, emendo:
- ....para suportar essa mulher
Nós duas juntas, sambando miudinho, no corredor do Fórum:
- ... tudo que ela vê numa vitrine ela quer, porque senão, ela chora e diz que vai embora oh, e diz que vai embora...
- É preciso muito amor ...
Não resisto, emendo:
- ....para suportar essa mulher
Nós duas juntas, sambando miudinho, no corredor do Fórum:
- ... tudo que ela vê numa vitrine ela quer, porque senão, ela chora e diz que vai embora oh, e diz que vai embora...
Surreal! A chapa estava esquentando! Era festa no apê mesmo! Não era pouco caso com a história, não. Era a trilha sonora da situação. Era a emoção rolando solta. Brasilidade!
Me digam se a Mulherzinha não chega chorando como na música? Pois, então! Enquanto esperamos a nossa vez para adentrarmos novamente na “sala de justiça”, converso com ela, explico a situação, alerto das possibilidades, digo que se ela estiver se sentindo pressionada ela não precisa entrar, que o procedimento está repleto de nulidades e bla blá. Advogo, finalmente!(será?)
Só que, meus caros, a Mulherzinha sabia bem o que tinha em casa. Sabia que o Maridão moveria céus e terras se a questão não fosse resolvida ali mesmo, agora, tudo ao mesmo tempo.
Diante da assertiva, coloco as três possibilidades: 1) encerrar o processo e continuar o casamento; 2) continuar o processo e encerrar o casamento; 3) suspender o processo por seis meses o que ele não aceitaria de jeito nenhum e terminar o casamento do mesmo jeito. Ou, talvez nada disso...Ih!
Diante da assertiva, coloco as três possibilidades: 1) encerrar o processo e continuar o casamento; 2) continuar o processo e encerrar o casamento; 3) suspender o processo por seis meses o que ele não aceitaria de jeito nenhum e terminar o casamento do mesmo jeito. Ou, talvez nada disso...Ih!
Parece cruel resolver a vida assim, desse jeito de uma hora pra outra? Lembrem-se que ela tinha tido tempo pra conversar com ele antes, resolver as coisas em casa e realmente solicitar o encerramento do processo. Não quis. Ela estava colhendo o que, sabe-se-lá, se tinha mesmo plantado. Depois, eu sou advogada e não psicóloga, né? Tá bom! Vá lá! Eu fiquei com dó! Tentando ajudar:
- Mulherzinha, vc gosta dele?
- Não é mais do mesmo jeito, não! Acho que nunca gostei. Mas, se terminar o processo ele vai começar a ficar agressivo de novo e o inferno lá em casa vai começar do mesmo jeito que era antes... Sabe o que é? Eu acho que me apeguei muito na nossa loja e ainda tem o apartamento... O ideal seria suspender por seis meses pra ver se ele não vai piorar de novo. Só que eu sei que ele não vai aceitar isso! E... tem a loja e o apartamento...
- Mulherzinha, vc gosta dele?
- Não é mais do mesmo jeito, não! Acho que nunca gostei. Mas, se terminar o processo ele vai começar a ficar agressivo de novo e o inferno lá em casa vai começar do mesmo jeito que era antes... Sabe o que é? Eu acho que me apeguei muito na nossa loja e ainda tem o apartamento... O ideal seria suspender por seis meses pra ver se ele não vai piorar de novo. Só que eu sei que ele não vai aceitar isso! E... tem a loja e o apartamento...
Nossa Senhora das Divorciadas! Nas separações quem mais sofre são as crianças, não a loja e o apartamento! Só
que eles não tinham filhos! Quer saber? Deixa pra lá...O juridicamente possível tinha sido feito. Pensa, Mulherzinha, pensa!
que eles não tinham filhos! Quer saber? Deixa pra lá...O juridicamente possível tinha sido feito. Pensa, Mulherzinha, pensa!Entramos na audiência (again!!!) e a assistente social, misto de Madre Teresa de Calcutá com Ana Maria Braga, resolve solicitar que as advogadas se retirassem para que ela conversasse com o casal.
Festa do caqui!!! Dancinha da garrafa em cima da Constituição!
No corredor, em cinco minutos, o Maridão vem nos fazer companhia:
- Eu senti que a Mulherzinha queria ficar sozinha com a assistente social. A Mulherzinha é assim mesmo. Muito infantil. Eu tô começando a ficar com nojo disso.
- Eu senti que a Mulherzinha queria ficar sozinha com a assistente social. A Mulherzinha é assim mesmo. Muito infantil. Eu tô começando a ficar com nojo disso.
De volta na sala. Lados opostos. Silêncio. Com voz de aeroporto, a assistente social começa a explicar o relacionamento deles para eles (!) como se fosse um conto de fadas, e no final diz que a Mulherzinha decidiu encerrar o processo. Pronto! Tudo bem! Esses dois se amam mesmo! Justiça foi feita! Estava bom para ambas as partes ... Nada! Maridão liga a buzina:
- Quero ouvir isso dela!
Ela fala com todas as letras, de quebra, três lágrimas:
– Não quero separar.
A respiração do Maridão fica ofegante. Pressão nas alturas. Ele parece que vai se esvair pelo ar. Mas não. Olha para Mulherzinha bem nos olhos, enquanto os seus próprios estavam marejados de lágrimas, e faz a “revira-volta”:
- Pois, eu não quero encerrar o processo! Quero continuar o casamento, mas quero que a separação fique suspensa por seis meses.
Eu quase tive um piripaque! Vou lá eu entender esse homi! Gente, aquele italianão tinha feito o que a Mulherzinha queria! Ele sabia que ela queria isso! Dizendo aquela frase ele tinha berrado nas entrelinhas: eu te amo! Não me deixa.
Fiquei emocionada, a assistente social, a outra advogada, até o gurizinho, todos em ponto de exclamação! Passional! Foi alucinante! Nem se ele tivesse dito quem matou Odete Roitmann seria tão emocionante.
Lavra-se o termo de audiência. Busco uma caneta, na bolsa pra assinar o termo, mas não dá nem tempo! O vento sopra, a poeira levanta e ele se transtorna: “volta- revira”! De novo! Novamente ao contrário. Ele se levanta e começa a falar que não vai agüentar, que não vai conseguir mais ficar perto dela. Que não quer continuar num casamento de mentira. Rasga os papéis! Isso mesmo... Rasga os papéis do termo de audiência e diz que quer continuar o processo... Suspender nada! Maridão tinha todos os sentimentos do mundo em ebulição dentro do peito, estava mais dilacerado, mais rasgado que o termo da audiência.
Batendo na mesa, olha pra ela e diz, mais como se falasse pra si mesmo:
- Eu amo essa mulher. Eu amo você. Eu sei que vou sofrer muito. Só que isso passa! Passa! Não é fácil para um homem admitir na frente de todas essas pessoas, que ama tanto uma mulher como você! Só que eu não te quero mais! Não quero mais você! Você me humilhou demais... Eu não quero mais você! Agora, quem quer se separar sou eu!
Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Nos descontos da arbitragem, nos quarenta e sete do segundo tempo, aquele homem faz gol de impedimento com a mão. SURREAL! O bandeirinha diz que é legal! O Juiz? Tava longe do lance numa outra audiência. (Não queiram saber de mim, eu estava ali quase puxando uma "ola", ele não era meu cliente, porém...vocês iriam começar a ola comigo, meus caros!)
E a Mulherzinha? Atônita! Lágrima nenhuma. Ela consente, dizendo: que seja feita a vontade do Maridão. O barco é conduzido neste mar tenebroso, ou seja, novo termo de audiência é lavrado e assinado por todos. Maridão salta para fora da sala. Sua advogada cambaleia atrás dele.
Ofereço uma carona pra minha cliente, já que pelo andar da carruagem o Maridão não a levaria de volta, né? Não aceita. Diz que precisa ir andando e pensando na vida. Antes, olha pra mim e com um sorriso, sentencia:
- Ele fez o que eu não tive coragem de fazer. Obrigada novamente, doutora!
Família é assim... O Direito também. Tumulto, emoções... Vida!
Não tem a matemática da Engenharia. Sem x no final do período.
Não salva vidas com operações e transfusões. Não vende no jornal. Não cozinha no fogão.
Não tem precisão nenhuma... Mas é preciso. Necessário!
O milímetro do exagero, o lapso do tempo, o balanço das marés, as fases da lua, o ritmo da música.
Não tem a matemática da Engenharia. Sem x no final do período.
Não salva vidas com operações e transfusões. Não vende no jornal. Não cozinha no fogão.
Não tem precisão nenhuma... Mas é preciso. Necessário!
O milímetro do exagero, o lapso do tempo, o balanço das marés, as fases da lua, o ritmo da música.
Toda a técnica processual, toda a doutrina jurídica e toda a legislação, neste dia de hoje, não serviram pra nada. Nadica de nada.
Humano. Respiração. Pulsação. Febre.
Só que eu tenho esperança... Data venia maxima, eu sinto...Sei lá!
Ou, eu estou muito enganada, MAS nessa noite, naquele apartamento, hummmm...
Nove semanas e meia, não será nem parâmetro.
Ou, eu estou muito enganada, MAS nessa noite, naquele apartamento, hummmm...
Nove semanas e meia, não será nem parâmetro.
Eles queriam suspender o processo por seis meses? Nove semanas e meia seria suficiente.
2 comentários:
Muito bacana, bom retrato de família.
Me senti como que lendo Nelson Rodrigues, mas em versão jurídica. Um bom retrato da família brasileira com todas as suas minúcias e nuances.
Gostei bastante.
"dotora" qdo a senhora vai escrever um livro??? Ou melhor, roteiros pra Hollywood?
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